Porque não acontecem coisas más às pessoas más?

Num artigo recente da revista/site Christianity Today, Jared Dodson, professor de estudos bíblicos que trabalha com estudantes universitários, aborda uma mudança na pergunta que as gerações anteriores faziam:
«Porque é que coisas más acontecem a pessoas boas?»
Esta pergunta é um clássico da teodiceia cristã, que procura compreender porque existe o mal num mundo criado por um Deus simultaneamente todo-poderoso e perfeitamente bom. São, essencialmente, as perguntas que surgem no Livro de Job: Como pode um Deus bom permitir o mal e o sofrimento de pessoas justas?
Contudo, na experiência do autor, a preocupação da Geração Z (que tem atualmente entre 14 e 29 anos) é outra:
«Porque é que coisas más não acontecem às pessoas más?»
Ou seja, onde está o julgamento de Deus contra os opressores? Se Deus existe, porque não castiga estas pessoas pelas suas faltas?
Jared Dodson relata a experiência de ensinar sobre a vida de David numa disciplina de introdução ao Antigo Testamento. Os alunos não tiveram dificuldade em lidar com o relato dos pecados de David contra Bate-Seba e o seu marido. O que os perturbou foi o que aconteceu depois: David pareceu ter sido castigado de forma demasiado branda. E como puderam os autores bíblicos apresentar posteriormente David como um exemplo positivo?
De facto, a história de David e Bate-Seba é demasiado familiar nos dias de hoje, com inúmeros casos de líderes envolvidos em abusos ou assédio sexual. Por outro lado, os meios digitais proporcionam uma exposição quase constante ao sofrimento e a violência extrema. Tornou-se “normal” ver imagens de morte, fome e pessoas ensanguentadas, seja em filmes de ficção, seja em imagens reais.
Por este motivo, Jared Dodson entende que os seus alunos sabem demasiado bem que coisas más acontecem a pessoas boas. O que querem saber é quando é que as pessoas más vão receber aquilo que merecem.
Este anseio está também presente na Bíblia, particularmente no Livro dos Salmos, como é o caso do Salmo 79, que declara: «Derrama a tua ira sobre as nações que não te reconhecem.», nações que ameaçavam continuamente o Povo de Deus. Estes dão voz ao desejo humano de ver justiça, especialmente para os oprimidos.
Então, o que mais choca é a tensão entre a Justiça e a Misericórdia de Deus. Uma vez, uma aluna de Jared perguntou:
— Acredita mesmo que ninguém é tão mau que esteja para além da redenção?
O autor respondeu algo como:
— Biblicamente, não. Não acredito que exista um mal mais poderoso do que a Cruz.
Ela ficou indignada! Para ela, a ideia de que a redenção pudesse estar disponível para todos era inconcebível. No artigo, o autor descreve também como procurou responder a esta objeção.
Na verdade, quando deixamos que o Espírito Santo revele o nosso interior diante da santidade de Deus, chegamos à conclusão de que não somos assim tão “bons" como gostamos de pensar (Romanos 3:10; 3:23). A Bíblia, como revelação de Deus, mostra que todos precisamos desesperadamente da Graça (favor imerecido) e do perdão de Deus, através da morte de Jesus na cruz (Evangelho de João 3:16, Carta aos Romanos 5:8).
A manifestação da justiça de Deus não é muitas vezes imediata. Na sua misericórdia e graça, e respeito pela liberdade de escolha de uma humanidade que decidiu viver à sua maneira, a reparação da injustiça pode parecer tardia. Tardia na perspectiva humana, porque Deus tem toda a eternidade para exercer a sua justiça. E Ele não se pode contrariar a Si mesmo, nem faltar às suas promessas (Números 23:19).
Talvez a verdadeira questão não seja por que as pessoas más parecem escapar ao castigo, mas sim por que Deus continua a oferecer favor imerecido a pessoas muito imperfeitas que falham o alvo de Deus (pecadores). A Bíblia ensina que todos pecaram e necessitam da misericórdia divina (Romanos 3:23). A morte de Cristo na cruz mostra simultaneamente a seriedade do pecado e da justiça de Deus, e a profundidade do seu amor. Por isso, a esperança cristã não está apenas na certeza de que Deus fará justiça, mas também na ressurreição de Cristo e na possibilidade de redenção para todos aqueles que se arrependem e se voltam para Deus. Porque não fazê-lo hoje?
Para aqueles que já colocaram a sua fé em Cristo, a esperança não se encontra apenas na promessa de um futuro melhor, mas também na certeza da presença de Deus nas dificuldades e no sofrimento. Embora nem sempre compreendamos as razões pelas quais certas injustiças acontecem, sabemos que Deus não é indiferente à dor humana. O próprio Jesus entrou na nossa condição, sofreu e venceu. Por isso, podemos enfrentar as dificuldades com esperança: um dia, «Ele enxugará dos seus olhos toda a lágrima. Não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.» (Apocalipse 21:4). Nada nos pode separa do Amor de Deus (Romanos 8:38-39). Ele próprio prometeu: «Estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos» (Evangelho de Mateus 28:20).
Comentário de Filipe Silva. O artigo original pode ser consultado neste link.
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