Este site utiliza cookies da Google para disponibilizar os respetivos serviços e para analisar o tráfego. O seu endereço IP e agente do utilizador são partilhados com a Google, bem como o desempenho e a métrica de segurança, para assegurar a qualidade do serviço, gerar as estatísticas de utilização e detetar e resolver abusos de endereço.

Saber mais

“Tenho sede”: o clamor humano de Jesus na cruz

“Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado,
para se cumprir a Escritura, disse: Tenho sede!”.
João 19:28

Uma das heresias que surgiu bem cedo na história do Cristianismo foi a negação da plena humanidade de Jesus. A teologia errada que o Senhor Jesus não era verdadeiramente humano, designada docetismo (do grego dokein, que significa “parecer”), defendia que Cristo não teve um corpo real. Os adeptos desta doutrina consideravam que Jesus teve uma aparência de humanidade, de modo que a sua encarnação não foi completa. Esta perspetiva foi influenciada pela filosofia grega, com destaque para Platão, que tinha uma visão muito negativa do corpo, que considerava impuro e indigno. Esta visão dualista do mundo defendia que o corpo e a realidade material eram inferiores, constituindo uma limitação para a alma na sua busca por conhecimento e sabedoria.

O apóstolo João declara enfaticamente que “todo aquele que confessar que Jesus Cristo se fez homem é de Deus. Mas todo aquele que não confessa isto acerca de Jesus não é de Deus” (1 João 4:2,3). Ao rejeitar a plena humanidade de Jesus, o docetismo nega também algumas verdades fundamentais do Evangelho, como a morte, ressurreição e ascensão do Senhor. E como refere o apóstolo Paulo, “se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis em vossos pecados” (1 Cor. 15:16,17).

O clamor “tenho sede”, proferido por Jesus na cruz, constitui mais uma prova da verdadeira humanidade do Senhor e da Sua experiência real de sofrimento e morte. O Dr. John Wyatt, que foi durante muitos anos professor de Neonatologia no University College London, assinala o estranho paradoxo: “o criador do céu e da terra com os lábios ressequidos! Este é o profundo mistério da encarnação. O Filho de Deus, que sustenta todo o cosmos pela palavra do seu poder, escolhe tornar-se completa e totalmente dependente dos outros. Esvazia-se a si mesmo e entra na experiência avassaladora da necessidade humana e da agonia humana. Com os braços estendidos, nada pode fazer por si próprio. Coloca-se voluntariamente à mercê dos seus inimigos e sofre a experiência tão humana e básica da sede”.

Os processos fisiopatológicos que levaram à morte de Jesus são conhecidos. Diversos autores, incluindo alguns médicos, têm analisado detalhadamente este acontecimento que mudou a história. A sede intensa experimentada pelo Senhor no calvário resultou de um estado de profunda desidratação, exacerbado pela perda significativa de sangue, para o qual contribuíram múltiplos fatores.

Após a última ceia pascal, o Senhor retirou-se para orar no Monte das Oliveiras. O médico e evangelista Lucas regista que o Seu suor se tornou como gotas de sangue (Lucas 22:44), um fenómeno raro conhecido como hematidrose, geralmente associado a estados de intenso sofrimento emocional. As inúmeras agressões e a flagelação infligidas pelos soldados romanos, bem como a coroa de espinhos que lhe colocaram, e o fato de ter percorrido parte do caminho até ao Gólgota carregando o patíbulo sobre as costas já martirizadas, provocaram uma perda considerável de sangue ainda antes da crucificação. Jesus permaneceu pelo menos 12 horas sem comer nem beber, antes da Sua morte no Calvário, tendo percorrido a pé cerca de 4 km para diferentes locais. O estado de acentuada exaustão física e desidratação do Senhor tornou necessário que fosse recrutado um voluntário à força, chamado Simão de Cirene, para carregar o patíbulo em Seu lugar (Lucas 23:26). O longo e cruel processo de crucificação, no qual pregos de ferro foram cravados nas mãos e pés do Senhor, provocou uma perda de sangue adicional não negligenciável.

Compreende-se assim a sede profunda experimentada por Jesus, como verdadeiro ser humano. No entanto, o Senhor clama em alta voz “tenho sede” para validar a profecia messiânica mencionada no Salmo 69:21, que diz: “Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre”. Nas palavras de João, “…para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede. Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num hissopo, lha chegaram à boca. E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (João 19: 28-30).

Podemos ainda considerar que o clamor de Cristo “tenho sede” tem um significado espiritual mais profundo do que a simples necessidade física ou a consumação das Escrituras. Poderá expressar a sede espiritual em fazer a vontade de Deus e cumprir integralmente a Sua chamada e missão. No Sermão do Monte, Jesus declara “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mateus 5:6). Termos fome e sede de cumprirmos a vontade de Deus significa o desejo intenso de vermos o Seu Reino estabelecido neste mundo, à medida que as pessoas conhecem Jesus como Salvador e Senhor das suas vidas, até ao dia em que Ele voltar.

Dr. Jorge Cruz

 

Bibliografia
Barbet, P. A crucificação de Cristo descrita por um cirurgião. Central Gospel, Rio de Janeiro, 2018.

Bergeron. J. W. The crucifixion of Jesus: A medical doctor examines the death and resurrection of Christ. St. Policarp Publishing House, Georgia, USA, 2018.

Wyatt, J. Dying Well. Inter-Varsity Press, London, 2018.


Imagem: Unsplash, Anderson Rian