Disforia de Género: a necessidade de evidência e segurança
Compreender o mundo de forma científica é um desafio porque a realidade é intrinsecamente complexa. Por outro lado, os estudos científicos, mesmo publicados em revistas prestigiadas, não têm todos o mesmo valor enquanto evidência. Podem ter amostras pequenas ou não representativas, períodos de seguimento curtos, pobre controlo de fatores confundentes, entre outras limitações que restringem a generalização dos resultados. A isto soma-se o viés de publicação, isto é, a maior probabilidade de serem publicados estudos com determina orientação de resultados, que não gerem reações negativas na comunidade.
Por outro lado, existe um grande volume de estudos, por vezes com resultados discordantes, sendo necessários trabalhos de revisão (desejavelmente sistemática e não narrativa) que não são imunes às convicções dos autores. Isto também acontece noutras áreas como o jornalismo, sendo por vezes mais notório o critério de seleção das fontes. Por este motivo, devemos ser prudentes com a expressão “um estudo mostrou que..” tantas vezes utilizada. Que estudo? Com que desenho metodológico? É também importante evitar generalizações a partir de situações individuais.
Por existirem dúvidas sobre a melhor abordagem das situações de Disforia de Género, o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS England) solicitou uma revisão independente com resultados preocupantes. A Cass Review (2024) analisou os cuidados de saúde a crianças e jovens com questões de identidade de género, tendo apresentado conclusões e recomendações importantes para a prática clínica:
- Fraca evidência científica: a evidência para muitos tratamentos em uso na Disforia de Género é limitada, inconsistente ou de baixa qualidade, particularmente no que respeita à utilização de bloqueadores da puberdade e terapias hormonais em idades precoces. Por este motivo, devem ser usadas apenas no contexto da investigação (ensaios clínicos) e não por protocolo.
- Falta de dados de segurança: é sabido que as hormonas sexuais da puberdade têm um papel crucial no desenvolvimento cognitivo dos adolescentes. Não existem dados sólidos sobre o impacto a longo prazo dos bloqueadores da puberdade e hormonas de sexo cruzado no desenvolvimento físico, cognitivo e na saúde mental.
- Imprevisibilidade: não é possível prever com segurança quais os jovens que vão desejar manter a identidade trans na idade adulta, pelo que intervenções hormonais precoces podem não ser o mais adequado.
- Deixar a natureza desenvolver-se: é referido que bloquear a puberdade não é propriamente “ganhar tempo”. Ao impedir o desenvolvimento hormonal natural, interfere-se num período-chave do processo de maturação cerebral, podendo "fixar" uma disforia que talvez se resolvesse com o tempo.
- Comorbilidades: muitos jovens com Disforia de Género têm outros problemas de saúde mental, perturbação do neurodesenvolvimento (nomeadamente autismo, com desafios na flexibilidade cognitiva, com interesses restritos e a integração com os pares) e questões sociais associadas. Estas condições não devem ser ignoradas.
- Avaliação abrangente: o estudo Cass concluiu que é necessária uma abordagem integrada da pessoa e da sua circunstância, para além das questões de identidade de género. Por este motivo, desaconselha-se o modelo anterior de clínicas altamente especializadas, centrada nas questões de género. É recomendada uma abordagem descentralizada em serviços de saúde mental com avaliação mais abrangente, com equipas multidisciplinares e melhor registo dos dados do que até aqui, permitindo a produção de evidência mais robusta.
Noutro estudo publicado no mesmo ano, Bachmann et al. (2024) analisaram dados nacionais da Alemanha (2013–2022) identificando uma mudança drástica no perfil epidemiológico anterior da Disforia de Género:
- Aumento de 800%: a prevalência de diagnósticos de perturbação de identidade de género (F64) em jovens aumentou 8 vezes numa década, o que sugere a influência de fatores do meio ambiente/sociais.
- Predomínio feminino: o pico de diagnósticos ocorre em raparigas adolescentes (15–19 anos), confirmando uma inversão demográfica observada noutros países ocidentais.
- Baixa persistência: menos de 50% dos jovens mantiveram o diagnóstico após 5 anos. A persistência foi de apenas 36,4% no total, chegando a valores tão baixos como 27,3% em raparigas de 15-19 anos. Isto sugere uma elevada fluidez da identidade nesta fase da vida e/ou necessidade de maior rigor ou revisão nos critérios de diagnóstico.
Também entre nós, no âmbito da Psiquiatria, a abordagem não é consensual pelos mesmos motivos - veja-se o artigo do Prof. Pedro Afonso.
Em suma, a evidência de grupos de trabalho independentes apela a decisões baseadas em estudos de elevada qualidade, com ênfase no princípio da prudência: avaliar cuidadosamente os benefícios sem ignorar os riscos, primum non nocere.
Ao interferir num aspeto fundamental da identidade individual, a Disforia de Género é uma condição geradora de sofrimento para o indivíduo e para a família, que a comunidade cristã não pode ignorar. É necessário ouvir com compaixão e compreender a história de cada pessoa. Não existem soluções rápidas, prontas a usar. Algumas pessoas testemunham que atravessaram estas dificuldades encontrando uma nova indentidade, mais forte, na pessoa de Jesus Cristo e na sua mensagem, como um percurso de renovação, alegria e paz interior. Deus ama-nos com amor profundo e incondicional e convida-nos, todos, a uma relação pessoal com Ele. Vem tal como estás - Jesus disse: “Todo aquele que vem a mim, não o lançarei fora.” (Evangelho de João 6:37)
Livro recomendado: Que Género Faz o Teu Género? 2ª Edição de Joel Oliveira; e Artigo Gender Dysphoria de Rick Thomas.
Filipe Silva, Pediatra
Imagem: Unsplash, Aedrian Salazar